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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

UM CORPO PARA O ALÉM

Por Richard Simonetti

O Homem é um Espírito encarnado em um corpo material.
O perispírito é o corpo semimaterial que une o Espírito ao corpo material.

Você pode não ser espírita, leitor amigo, mas se ligado a qualquer culto religioso, catolicismo, budismo, protestantismo, islamismo ou quejandos, é um espiritualista – concebe a existência e sobrevivência do Espírito, que anima os seres humanos.
Em O Livro dos Espíritos, questão 88, o mentor espiritual que orienta Kardec explica que o Espírito pode ser imaginado como uma chama, um clarão ou uma centelha etérea.
Sem morfologia, sem corpo, sem braços e sem pernas, como atua ele na dimensão espiritual?
Essa dúvida levou os teólogos medievais a desenvolverem o princípio de que a consciência está indissoluvelmente ligada ao cérebro.
Assim, se morre o homem, hiberna o Espírito.
Dormirá até hipotético juízo final, quando os mortos retornarão à vida, ressurgindo, literalmente, das cinzas. Só então, ligado ao corpo ressurrecto, o ser pensante retomará a consciência de si mesmo.

***

Levando em consideração essa fabulosa ideia, que supera a imaginação do mais audacioso ficcionista, como explicar os episódios a seguir?

• Segundo o Livro de Tobias, no Velho Testamento, um anjo, que diríamos Espírito protetor, toma a forma humana e durante algum tempo convive com o velho Tobias, cego, e seu filho o jovem Tobias, ajudando-os e protegendo-os, sem que eles soubessem de sua verdadeira natureza.

• Consultando a pitonisa de Endor, o rei Saul vê, estarrecido, o profeta Samuel que vem da morada dos mortos para dizer-lhe que ele pereceria no dia seguinte, juntamente com seus filhos, na batalha contra os filisteus, vaticínio terrível, que se cumpriu.

Jesus levou os apóstolos Pedro, João e Tiago a um monte, que a tradição fixou como o Tabor. E ali, segundo relatam os evangelistas, parecia resplandecer à luz do Sol, conversando com Moisés e Elias, figuras marcantes do Velho Testamento.

Paulo, perseguidor implacável dos cristãos, estava às portas de Damasco, onde pretendia prender Ananias, dedicado adepto da nova crença. Eis que, para sua surpresa, Jesus aparece diante dele, numa das mais emocionantes passagens do Evangelho, modificando os rumos de sua vida.

Santo Antônio, notável missionário cristão, fazia sua costumeira pregação em Pádua, na Itália, quando, assustando o público, pareceu sofrer fulminante síncope. Simultaneamente apresentou-se num tribunal em Lisboa, a oitocentos quilômetros, para defender seu pai que estava sendo injustamente julgado por um crime que não cometera. Após desfazer a intriga, o santo desapareceu de Lisboa e acordou em Pádua, para alívio dos fiéis.

• A professora ministrava a aula quando, sonolenta, sentou-se numa cadeira e ali permaneceu imóvel. Uma aluna, à janela, chamou as colegas. A mestra estava lá fora. Viam agora duas professoras, uma adormecida na cadeira; a outra, um clone perfeito, passeando no jardim. Pouco depois sumiu a de fora; despertou a de dentro.


• Noite alta, um médico ouviu baterem à porta de sua casa, perto de movimentada estrada. Jovem mulher, em desespero, pediu-lhe socorro para vítimas de um acidente de automóvel. Ele atendeu prontamente, correndo para o local, nas imediações. Ali deparou-se com uma criança a chorar, ao lado da motorista morta. Estupefato constatou que era a mulher que lhe pedira socorro.

Uma senhora acordou vendo o filho ao seu lado. Parecia ferido e aflito, mas logo desapareceu. Preocupada, não conseguiu mais conciliar o sono. Pela manhã recebeu a notícia de que o rapaz morrera num acidente de automóvel, em plena madrugada, pouco antes de sua visão.

Uma mulher deitou-se e apagou a luz. Observou que o cônjuge se levantou e saiu do quarto. Ficou apavorada, porquanto estava abraçada a ele na cama.

Um médium vidente, em reunião mediúnica, informa a presença de um visitante espiritual. Trata-se de membro do grupo, recém-desencarnado. Não tem dificuldade em identificá-lo. É o próprio, apresentando-se sorridente e feliz.

Visitantes de um castelo com fama de mal-assombrado assustam-se ao ver um homem de lúgubre aparência, jeito ameaçador, identificado como falecido proprietário do castelo.

São episódios distintos, mas têm algo em comum.
Em todos houve o contato de homens com Espíritos.
Três eram encarnados.
Atente ao detalhe, amigo leitor: invariavelmente, os Espíritos tinham cabeça, tronco, membros e outros detalhes da morfologia humana!
Isto significa, obviamente, que afora o chamado veículo carnal, temos outro, que nos serve para atuar na dimensão espiritual.
Não é novidade.
Desde as culturas mais antigas, cogitou-se do assunto.
No budismo esotérico falava-se desse corpo. Era o Kama-Rupa.
Pitágoras o denominava carne sutil da alma.
Aristóteles dizia corpo etéreo.
Hermetistas e alquimistas falavam em corpo astral.
Paulo reporta-se a ele, na Epístola aos Coríntios, quando diz que há corpos terrestres e corpos celestes. E proclama:

Semeia-se o corpo na corrupção (morto) e ele revive na incorrupção (o corpo espiritual).

Quando morremos, o corpo físico se decompõe.
O Espírito passa a usar o corpo espiritual, não passível de decomposição.



Allan Kardec define o corpo espiritual como perispírito, composto a partir do prefixo grego peri, em torno. Seria, portanto, como que o “revestimento” do Espírito.
O perispírito é o elo de ligação entre o Espírito e a carne.
Daí dizer-se que o homem é composto de três partes distintas:
Espírito, perispírito e corpo físico.
Como o perispírito é uma espécie de fôrma da forma física, ao desencarnar o Espírito tende a conservar a morfologia humana. Em condições especiais pode tornar-se visível aos homens, como nos casos citados.
Há múltiplas funções exercidas pelo corpo espiritual.
Está sempre presente nos fenômenos mediúnicos. É a natureza de sua ligação com o corpo físico que vai determinar se o indivíduo terá maior ou menor sensibilidade, se terá determinada faculdade a desenvolver.
Quando alguém está extremamente debilitado fisicamente, afrouxam-se os laços perispirituais, facultando-lhe visões do mundo espiritual. Esta a razão pela qual os moribundos parecem ter alucinações, reportando-se à presença de familiares e amigos desencarnados.
Realmente os vêem.

***

A saúde subordina-se estreitamente às condições do perispírito. Grande parte dos males físicos e psíquicos que nos afetam reflete seus desajustes.
A fluidoterapia ou a aplicação do passe magnético, prática comum nos Centros Espíritas, é uma transfusão de energias que tonificam o corpo celeste, com excelentes resultados.
Melhor ainda são os cuidados profiláticos – evitar o desajuste para não se perder tempo, nem desgastar-se com ele.
O perispírito reflete a vida íntima.
Consciência tranquila, deveres cumpridos, virtude cultivada – perispírito saudável.
Consciência culpada, irresponsabilidade, envolvimento com o vício, pensamento desajustado – perispírito comprometido.
Alguns casos ilustrativos.

• A mulher que pratica o aborto habilita-se à esterilidade, tumores e infecções renitentes.

• O alcoólatra terá problemas no sistema digestivo, particularmente no fígado.

• O fumante experimentará dificuldades respiratórias, envolvendo enfisema pulmonar, bronquite, asma…

• O suicida terá desajustes e enfermidades relacionados com a natureza do suicídio, a maneira que escolheu para furtar-se aos desafios da vida.

• O maledicente experimentará limitações no exercício da palavra – distúrbios vocais, dificuldade de raciocínio.

As conseqüências de nossas ações gravam-se no corpo etéreo a cada gesto, a cada má palavra, a cada pensamento negativo, refletindo-se em nossos estados emocionais, a gerar variados problemas físicos e psíquicos.
Por isso, se queremos cultivar a saúde e sustentar a harmonia, é preciso que observemos preciosa orientação do apostolo Paulo (Epístola aos Filipenses, 4:8):

Tudo o que é verdadeiro,
Tudo o que é honesto,
Tudo o que é justo,
Tudo o que é puro,
Tudo o que é amável,
Tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.

(Richard Simonetti, livro Espiritismo, Uma Nova Era para a Humanidade.)

sábado, 20 de agosto de 2016

EXISTEM ESPÍRITOS?

Sim...
Comum é ouvirmos indagação como esta do titulo.
Embora grande parte da população do globo siga uma ou outra filiação religiosa, sendo assim, espiritualistas, ainda ha da parte de muitos a duvida dessa realidade: Há nos seres algo além da matéria em si.
Existe um principio independente do organismo físico?
As experiencias que temos vivenciado, desde a infância, nos confirmam este fato.
A convivência com nosso pai, espirita e médium, nos demonstrou inúmeros fenômenos, que somente a imortalidade do ser explica.
Quantas vezes pessoas sofridas, algumas já a longo tempo sendo amparadas por recursos médicos, vinham em nosso lar em busca de preces e alivio. Recordo como se fosse ocorrido neste instante, ele impor as mãos sobre suas cabeças, após uma prece sentida, transmitindo-lhes amoroso magnetismo através do conhecido passe, tão usado nas casas espiritas.
Logo em seguida, elas já se mostravam bem mais dispostas, animadas, revigoradas mesmo. Muitas dessas vezes nosso pai relatava a origem do problema de saúde, o órgão que estava necessitado de cuidados, e quantas relatavam mais tarde confirmando o fato e a melhora das mesmas.
Perguntava a ele como isso era possível, como ele sabia, como ele via o problema da pessoa e ele dizia que com os "olhos da alma", ou outras tantas vezes através do concurso de amigos de luz que se faziam presentes ao lado dos aflitos. Seres que não captava com meus olhos físicos, mas que tantas e tantas vezes se  faziam presentes em socorro as dores alheias.
Mais tarde, me debruçando nas obras espiritas de sua estante, fui compreendendo que realmente somos mais do que os olhos veem. Não somos a carne, os nervos, ossos, órgãos... somos o Espirito Imortal que comanda e coordena esse veiculo material que chamamos corpo.
Em o Livro dos Médiuns, assim Allan Kardec aborda o assunto no 1º capitulo: "A causa principal da dúvida sobre a existência dos Espíritos é a ignorância da sua verdadeira natureza. Imaginam-se os Espíritos como seres à parte na Criação, sem nenhuma prova da sua necessidade. Muitas pessoas só concedem os Espíritos através das estórias fantasiosas que ouviram em crianças, mais ou menos como as que conhecem História pelos romances. Não procuram saber se essas estórias, desprovidas do pitoresco, podem revelar um fundo verdadeiro, ao lado do absurdo que as choca. (...) 
Seja qual for à ideia que se faça dos Espíritos, a crença na sua existência decorre necessariamente do fato de haver um princípio inteligente no Universo, além da matéria. Essa crença é incompatível com a negação absoluta do referido princípio. Partimos, pois, da aceitação da existência, sobrevivência e individualidade da alma, de que o Espiritualismo em geral nos oferece a demonstração teórica dogmática, e o Espiritismo a demonstração experimental."
E dentro desses fatos experimentais, não podemos recusar as experiencias de homens e mulheres dignos e honrados, como William Crookes, Charles Richet, Elizabeth D'Esperance, Luis Almeida, Herculano Pires, Ian Stevenson, Hernani Guimarães Andrade e muitos outros que com toda seriedade pesquisaram o assunto, com todo critério cientifico, afirmando o Espirito como a grande realidade humana.
Trazendo mais perto de nós, como não citar o inesquecível Chico Xavier, médium e homem extraordinário, que nos trouxe experiencias luminosas nesse campo. 
Certa vez, estando nosso estimado Chico em São Paulo, aproveitou para fazer uma visita de rotina ao seu médico oftalmologista, Dr. Nadir Sáfadi, que vinha cuidando de suas dificuldades de ordem visual.
O respeitado médico examinava as órbitas oculares de Chico com toda a atenção e cuidado que a profissão exige, quando soltou-lhe, à queima-roupa, a seguinte questão:
— Chico, me diga uma coisa, você vê mesmo os espíritos? Ao que Chico respondeu, prontamente:
— Vejo, sim, senhor, Dr. Nadir. É verdade que trago comigo a faculdade mediúnica da vidência!
O médico, curioso, retrucou-lhe:
— Mas como é que enxerga os espíritos com estes olhos, assim, tão debilitados`? Você os vê com estes olhos mesmo?
— Ah, não senhor. A mediunidade vidente não depende dos olhos do corpo físico. O assunto nos exige muito estudo, disse-lhe o Chico.
— Então, me diga se está vendo algum espírito aqui, em meu consultório, Chico.
— Eu confirmo que estou vendo um Espírito aqui conosco, Dr. Nadir.
— Mas, então, diga-me, Chico, quem é que está aqui? Qual o nome dele?
Chico parou por um momento, meio desconcertado. O espírito já havia se identificado, mas o estimado médium vacilava entre aceitar ou não aquele nome tão incomum. “Afinal — pensava Chico — — será que estou sendo vítima de alguma chacota dos Espíritos? Não me lembro de ter ouvido este nome antes, um nome assim tão estranho, me fazendo lembrar a figura da cebola! Meu Deus, que fazer?”
Tudo isso pensava silenciosamente o médium, deixando Dr. Nadir na expectativa da resposta.
Ante a sua insistência, Chico respondeu, afinal:
— Ele está me dizendo chamar-se Senobelino Serra. Diz ter sido natural de São José do Rio Preto. Dr. Senobelino Serra.
— Oh, Chico, não me diga que ele está aqui conosco! — espantou-se o Dr. Nadir. — Dr. Senobelino Serra foi meu professor, foi muito amigo meu!
Mais aliviado com a confirmação da identidade espiritual, Chico completou:
— Pois, então, é ele mesmo, Dr. Nadir. Ele está me dizendo que foi designado pela Espiritualidade Maior para ajudar o senhor na profissão de médico oftalmologista, juntamente com outros amigos, porque o senhor ajuda muita gente aqui no consultório, Dr. Nadir!
Visivelmente emocionado, o médico nada mais perguntou.
Nas palavras de Allan Kardec: "Como vemos, as almas que povoam o espaço são precisamente o que chamamos de Espíritos. Assim, os Espíritos são apenas as almas humanas, despojadas do seu invólucro corporal."
São relatos assim, que nos fazem mais profundamente meditar sobre quem de fato somos e nosso papel dentro da Vida. Sem misticismo e sem toques de sobrenatural, o Espiritismo nos conclama a estudarmos o sentido mais profundo de nós mesmos. 
Sentido que todas as religiões, de um modo ou outro, também possuem em seus princípios. E que o Espiritismo somente vem reforçar e clarear, elevando as palavras do próprio Cristo aos nossos corações:

O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. (João 6:63)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O JUÍZO FINAL

Vivemos tempos conturbados, onde a aflição toma conta de muitos corações.
Não são poucos a crerem que estamos numa especie de "fim dos tempos", tão alarmantes sejam os noticiários e convulsões sociais. Como espirita, compreendo as problemáticas da vida como transições, transformações, necessárias ao progresso de todos, afinal se somos frutos da Inteligência Suprema, causa primeira de todas as coisas, somos projetos destinados ao sucesso e a felicidade.
Assim sendo, fatal será apenas a melhoria de todos, passo a passo e mesmo dor a dor.
Me lembro de uma canção de Nelson Cavaquinho, chamada Juízo Final, em que sua letra declara:

"O sol....há de brilhar mais uma vez
A luz....há de chegar aos corações
Do mal....será queimada a semente"

O Bem é a força maior que há de imperar sobre todas as calamidades e para melhor refletirmos sobre o assunto, deixamos trecho interessantíssimo do livro A Gênese, de Allan Kardec, abaixo.
Acompanhemos:

Ora, quando o Filho do Homem vier em sua majestade, acompanhado de todos os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; — e, reunidas à sua frente todas as nações, Ele separará uns dos outros, como um pastor separa dos bodes as ovelhas, e colocará à sua direita as ovelhas e à sua esquerda os bodes. — Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: “Vinde a mim, benditos de meu Pai [...].” (Mateus, 25:31 a 46; O evangelho segundo o espiritismo, cap. XV.)

Tendo que reinar na Terra o bem, necessário é sejam dela excluídos os Espíritos endurecidos no mal e que possam acarretar-lhe perturbações. Deus permitiu que eles aí permanecessem o tempo de que precisavam para se melhorarem; mas, chegado o momento em que, pelo progresso moral de seus habitantes, o globo terráqueo tem de ascender na hierarquia dos mundos, interdito será ele, como morada, a encarnados e desencarnados que não hajam aproveitado os ensinamentos que uns e outros se achavam em condições de aí receber. Serão exilados para mundos inferiores, como o foram outrora para a Terra os da raça adâmica, vindo substituí-los Espíritos melhores. Essa separação, a que Jesus presidirá, é que se acha figurada por estas palavras sobre o juízo final: “Os bons passarão à minha direita e os maus à minha esquerda.”
A doutrina de um juízo final, único e universal, pondo fim para sempre à humanidade, repugna à razão, por implicar a inatividade de Deus, durante a eternidade que precedeu à criação da Terra e durante a eternidade que se seguirá à sua destruição. Que utilidade teriam então o Sol, a Lua e as estrelas que, segundo a Gênese, foram feitos para iluminar o mundo? Causa espanto que tão imensa obra se haja produzido para tão pouco tempo e a benefício de seres votados de antemão, em sua maioria, aos suplícios eternos.
Materialmente, a ideia de um julgamento único seria, até certo ponto, admissível para os que não procuram a razão das coisas, quando se cria que a humanidade toda se achava concentrada na Terra e que para seus habitantes fora feito tudo o que o universo contém. É, porém, inadmissível, desde que se sabe que há milhares de milhares de mundos semelhantes,que perpetuam as humanidades pela eternidade em fora e entre os quais a Terra é dos menos consideráveis, simples ponto imperceptível. Vê-se, só por este fato, que Jesus tinha razão de declarar a seus discípulos: “Há muitas coisas que não vos posso dizer, porque não as compreenderíeis”, dado que o progresso das ciências era indispensável para uma interpretação legítima de algumas de suas palavras. Certamente, os apóstolos, Paulo e os primeiros discípulos teriam estabelecido de modo muito diverso alguns dogmas se tivessem os conhecimentos astronômicos, geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que hoje possuímos. Daí vem o ter Jesus adiado a completação de seus ensinos e anunciado que todas as coisas haviam de ser restabelecidas.
Moralmente, um juízo definitivo e sem apelação não se concilia com a bondade infinita do Criador, que Jesus nos apresenta de contínuo como um bom Pai, que deixa sempre aberta uma senda para o arrependimento e que está pronto sempre a estender os braços ao filho pródigo. Se Jesus entendesse o juízo naquele sentido, desmentiria suas próprias palavras. Além disso, se o juízo final houvesse de apanhar de improviso os homens, em meio de seus trabalhos ordinários, e grávidas as mulheres, caberia perguntar-se com que fim Deus, que não faz coisa alguma inútil ou injusta, faria nascessem crianças e criaria almas novas naquele momento supremo, no termo fatal da humanidade. Seria para submetê-las a julgamento logo ao saírem do ventre materno, antes de terem consciência de si mesmas, quando, a outros, milhares de anos foram concedidos para se inteirarem do que respeita à própria individualidade? Para que lado, direito ou esquerdo, iriam essas almas, que ainda não são nem boas nem más e para as quais, no entanto, todos os caminhos de ulterior progresso se encontrariam desde então fechados, visto que a humanidade não mais existiria?
Conservem-nas os que se contentam com semelhantes crenças; estão no seu direito e ninguém nada tem que dizer a isso; mas, não achem mau que nem toda gente partilhe delas.
 O juízo, pelo processo da emigração, conforme ficou explicado acima, é racional; funda-se na mais rigorosa justiça, visto que conserva para o Espírito, eternamente, o seu livre-arbítrio; não constitui privilégio para ninguém; a todas as suas criaturas, sem exceção alguma, concede Deus igual liberdade de ação para progredirem; o próprio aniquilamento de um mundo, acarretando a destruição do corpo, nenhuma interrupção ocasionará à marcha progressiva do Espírito. Tais as consequências da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências. Segundo essa interpretação, não é exata a qualificação de juízo final, pois que os Espíritos passam por análogas fieiras a cada renovação dos mundos por eles habitados, até que atinjam certo grau de perfeição. Não há, portanto, juízo final propriamente dito, mas juízos gerais em todas as épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos, por efeito das quais se operam as grandes emigrações e imigrações de Espíritos.

("A Gênese segundo o Espiritismo", Cap. 17, Predições do Evangelho)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

OS ANJOS SEGUNDO O ESPIRITISMO

Por Allan Kardec

Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não restam dúvidas. A revelação espírita neste ponto confirma a crença de todos os povos, fazendo- -nos conhecer ao mesmo tempo a origem e natureza de tais seres. As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem conhecimentos nem consciência do bem e do mal, porém, aptos para adquirir o que lhes falta. O trabalho é o meio de aquisição, e o fim — que é a perfeição — é para todos o mesmo. Conseguem-no mais ou menos prontamente em virtude do livre-arbítrio e na razão direta dos seus esforços; todos têm os mesmos degraus a franquear, o mesmo trabalho a concluir. Deus não aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem todos seus filhos, não tem predileções. Ele lhes diz: Eis a lei que deve constituir a vossa norma de conduta; ela só pode levar-vos ao fim; tudo que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for contrário é o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta lei, e assim sereis os árbitros da vossa própria sorte. Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.

Entretanto, a alma, qual criança, é inexperiente nas primeiras fases da existência, e daí o ser falível. Não lhe dá Deus essa experiência, mas dá-lhe meios de adquiri-la. Assim, um passo em falso na senda do mal é um atraso para a alma, que, sofrendo-lhe as conseqüências, aprende à sua custa o que importa evitar. Deste modo, pouco a pouco, se desenvolve, aperfeiçoa e adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro Espírito ou anjo. Os anjos são, pois, as almas dos homens chegados ao grau de perfeição que a criatura comporta, fruindo em sua plenitude a prometida felicidade. Antes, porém, de atingir o grau supremo, gozam de felicidade relativa ao seu adiantamento, felicidade que consiste, não na ociosidade, mas nas funções que a Deus apraz confiar-lhes, e por cujo desempenho se sentem ditosas, tendo ainda nele um meio de progresso.

A Humanidade não se limita à Terra; habita inúmeros mundos que no Espaço circulam; já habitou os desaparecidos, e habitará os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais cessa de criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que a suponhamos, outros mundos havia, nos quais Espíritos encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação, atingindo seu fim antes mesmo que houvéramos saído das mãos do Criador. De toda a eternidade tem havido, pois, puros Espíritos ou anjos; mas, como a sua existência humana se passou num infinito passado, eis que os supomos como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos.

Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação; Deus nunca esteve inativo e sempre teve puros Espíritos, experimentados e esclarecidos, para transmissão de suas ordens e direção do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes. Tampouco teve Deus necessidade de criar seres privilegiados, isentos de obrigações; todos, antigos e novos, adquiriram suas posições na luta e por mérito próprio; todos, enfim, são filhos de suas obras. E, desse modo, completa-se com igualdade a soberana justiça do Criador

(Livro "O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo", Cap. 6, "Os anjos", item 12)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A NOVA GERAÇÃO


Por Allan Kardec

'Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente ao bem se dediquem. Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta transformado, serão excluídos, porque, senão, lhe ocasionariam de novo perturbação e confusão e constituiriam obstáculo ao progresso. Irão expiar o endurecimento de seus corações, uns em mundos inferiores, outros em raças terrestres ainda atrasadas, equivalentes a mundos daquela ordem, aos quais levarão os conhecimentos que hajam adquirido, tendo por missão fazê-las avançar. Substituí-los-ão Espíritos melhores, que farão reinem em seu seio a justiça, a paz e a fraternidade. 

A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas.

Tudo, pois, se processará exteriormente, como sói acontecer, com a única, mas capital diferença de que uma parte dos Espíritos que encarnavam na Terra aí não mais tornarão a encarnar. Em cada criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem. 

Muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que de uma nova geração de Espíritos. Sem dúvida, neste sentido é que Jesus entendia as coisas, quando declarava: «Digo-vos, em verdade, que esta geração não passará sem que estes fatos tenham ocorrido.» Assim decepcionados ficarão os que contem ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos.' (A GÊNESE, Capítulo XVIII, item 14, Allan Kardec. São Chegados os tempos.)
.......

'A época atual é de transição; confundem-se os elementos das duas gerações. Colocados no ponto intermédio, assistimos à partida de uma e à chegada da outra, já se assinalando cada uma, no mundo, pelos caracteres que lhes são peculiares. 

Têm idéias e pontos de vista opostos as duas gerações que se sucedem. Pela natureza das disposições morais, porém sobretudo das disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo. 

Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e a crenças espiritualistas, o que constitui sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, já tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as idéias progressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração. 

O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasados é, em primeiro lugar, a revolta contra Deus, pelo se negarem a reconhecer qualquer poder superior aos poderes humanos; a propensão instintiva para as paixões degradantes, para os sentimentos antifraternos de egoísmo, de orgulho, de inveja, de ciúme; enfim, o apego a tildo o que é material: a sensualidade, a cupidez, a avareza. 

Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento dos que se obstinam em não emendar-se; porque são incompatíveis com o reinado da fraternidade e porque o contacto com eles constituirá sempre um sofrimento para os homens de bem. Quando a Terra se achar livre deles, os homens caminharão sem óbices para o futuro melhor que lhes está reservado, mesmo neste mundo, por prêmio de seus esforços e de sua perseverança, enquanto esperem que uma depuração mais completa lhes abra o acesso aos mundos superiores.

29. - Não se deve entender que por meio dessa emigração de Espíritos sejam expulsos da Terra e relegados para mundos inferiores todos os Espíritos retardatários. Muitos, ao contrário, aí voltarão, porquanto muitos há que o são porque cederam ao arrastamento das circunstâncias e do exemplo. Nesses, a casca é pior do que o cerne. Uma vez subtraídos à influência da matéria e dos prejuízos do mundo corporal, eles, em sua maioria, verão as coisas de maneira inteiramente diversa daquela por que as viam quando em vida, conforme os múltiplos casos que conhecemos. Para isso, têm a auxiliá-los Espíritos benévolos que por eles se interessam e se dão pressa em esclarecê-los e em lhes mostrar quão falso era o caminho que seguiam. Nós mesmos, pelas nossas preces e exortações, podemos concorrer para que eles se melhorem, visto que entre mortos e vivos há perpétua solidariedade. 

É muito simples o modo por que se opera a transformação, sendo, como se vê, todo ele de ordem moral, sem se afastar em nada das leis da Natureza.

30. - Sejam os que componham a nova geração Espíritos melhores, ou Espíritos antigos que se melhoraram, o resultado é o mesmo. Desde que trazem disposições melhores, há sempre uma renovação. Assim, segundo suas disposições naturais, os Espíritos encarnados formam duas categorias: de um lado, os retardatários, que partem; de outro, os progressistas, que chegam. O estado dos costumes e da sociedade estará, portanto, no seio de um povo, de uma raça, ou do mundo inteiro, em relação com aquela das duas categorias que preponderar.

31. - Uma comparação vulgar ainda melhor dará a compreender o que se passa nessa circunstância. Figuremos um regimento composto na sua maioria de homens turbulentos e indisciplinados, os quais ocasionarão nele constantes desordens que a lei penal terá por vezes dificuldades em reprimir. Esses homens são os mais fortes, porque mais numerosos do que os outros. Eles se amparam, animam e estimulam pelo exemplo. Os poucos bons nenhuma influência exercem; seus conselhos são desprezados; sofrem com a companhia dos outros, que os achincalham e maltratam. Não é essa uma imagem da sociedade atual? 

Suponhamos que esses homens são retirados um a um, dez a dez, cem a cem, do regimento e substituídos gradativamente por iguais números de bons soldados, mesmo por alguns dos que, já tendo sido expulsos, se corrigiram. Ao cabo de algum tempo, existirá o mesmo regimento, mas transformado. A boa ordem terá sucedido à desordem.

32. - As grandes partidas coletivas, entretanto, não têm por único fim ativar as saídas; têm igualmente o de transformar mais rapidamente o espírito da massa, livrando-a das más influências e o de dar maior ascendente às idéias novas. 

Por estarem muitos, apesar de suas imperfeições, maduros para a transformação, é que muitos partem, a fim de apenas se retemperarem em fonte mais pura. Enquanto se conservassem no mesmo meio e sob as mesmas influências, persistiriam nas suas opiniões e nas suas maneiras de apreciar as coisas. Uma estada no mundo dos Espíritos bastará para lhes descerrar os olhos, por isso que aí vêem o que não podiam ver na Terra. O incrédulo, o fanático, o absolutista, poderão, conseguintemente, voltar com idéias inatas de fé, tolerância e liberdade. Ao regressarem, acharão mudadas as coisas e experimentarão a influência do novo meio em que houverem nascido. Longe de se oporem às novas idéias, constituir-se-ão seus auxiliares.

33. - A regeneração da Humanidade, portanto, não exige absolutamente a renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação em suas disposições morais. Essa modificação se opera em todos quantos lhe estão predispostos, desde que sejam subtraídos à influência perniciosa do mundo. Assim, nem sempre os que voltam são outros Espíritos; são com freqüência os mesmos Espíritos, mas pensando e sentindo de outra maneira. 

Quando insulado e individual, esse melhoramento passa despercebido e nenhuma influência ostensiva alcança sobre o mundo. Muito outro é o efeito, quando a melhora se produz simultaneamente sobre grandes massas, porque, então, conforme as proporções que assuma, numa geração, pode modificar profundamente as idéias de um povo ou de uma raça.

É o que quase sempre se nota depois dos grandes choques que dizimam as populações. Os flagelos destruidores apenas destroem corpos, não atingem o Espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo corporal e o mundo espiritual e, por conseguinte, o movimento progressivo dos Espíritos encarnados e desencarnados. É de notar-se que em todas as épocas da História, às grandes crises sociais se seguiu uma era de progresso.

34. - Opera-se presentemente um desses movimentos gerais, destinados a realizar uma remodelação da Humanidade. A multiplicidade das causas de destruição constitui sinal característico dos tempos, visto que elas apressarão a eclosão dos novos germens. São as folhas que caem no outono e às quais sucedem outras folhas cheias de vida, porquanto a Humanidade tem suas estações, como os indivíduos têm suas várias idades. As folhas mortas da Humanidade caem batidas pelas rajadas e pelos golpes de vento, porém, para renascerem mais vivazes sob o mesmo sopro de vida, que não se extingue, mas se purifica.

35. - Para o materialista, os flagelos destruidores são calamidades carentes de compensação, sem resultados aproveitáveis, pois que, na opinião deles, os aludidos flagelos aniquilam os seres para sempre. Para aquele, porém, que sabe que a morte unicamente destrói o envoltório, tais flagelos não acarretam as mesmas conseqüências e não lhe causam o mínimo pavor; ele lhes compreende o objetivo e não ignora que os homens não perdem mais por morrerem juntos, do que por morrerem isolados, dado que, duma forma ou doutra, a isso hão de todos sempre chegar. 

Os incrédulos rirão destas coisas e as qualificarão de quiméricas; mas, digam o que disserem, não fugirão à lei comum; cairão a seu turno, como os outros, e, então, que lhes acontecerá? Eles dizem: Nada! Viverão, no entanto, a despeito de si próprios e se verão, um dia, forçados a abrir os olhos.'


A Gênese, Capítulo XVIII, 28 a 35, Allan Kardec FEB.

sábado, 2 de julho de 2016

A CARNE É FRACA


Por Allan Kardec

Estudo Psicológico e Moral

Há inclinações viciosas que, evidentemente, são inerentes ao Espírito, porque se devem mais ao moral do que ao físico; outras mais parecem consequências do organismo e, por este motivo, nós nos julgamos menos responsáveis; tais são as predisposições a cólera, à indolência, à sensualidade, etc.
Está hoje perfeitamente reconhecido, pelos filósofos espiritualistas, que os órgãos cerebrais correspondentes às diversas aptidões, devem o seu desenvolvimento à atividade do Espírito; que esse desenvolvimento é, assim, um efeito e não uma causa. Um homem não é músico porque tenha a bossa da música, mas tem a bossa da música porque seu Espírito é músico. (Revista de julho de 1860 e abril de 1862.)
Se a atividade do Espírito reage sobre o cérebro, deve reagir igualmente sobre as outras partes do organismo. Assim, o Espírito é o artífice de seu próprio corpo, que, a bem-dizer, modela, a fim de apropriá-lo às suas necessidades e à manifestação de suas tendências. Assim sendo, a perfeição do corpo nas raças adiantadas seria o resultado do trabalho do Espírito, que aperfeiçoa a sua ferramenta à medida que aumentam as suas faculdades. (A Gênese segundo o Espiritismo, cap. XI, “Gênese espiritual”.)
Por uma consequência natural deste princípio, as disposições morais do Espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante de bile ou outros fluidos. É assim, por exemplo, que o glutão sente vir a saliva ou, como se diz vulgarmente, a água à boca à vista de um prato apetitoso. Não é o alimento que superexcita o órgão do paladar, pois não há contato; é o Espírito, cuja sensualidade é despertada, que age pelo pensamento sobre esse órgão, enquanto a vista daquele prato nada produz sobre outro Espírito. Dá-se o mesmo em todas as cobiças, em todos os desejos provocados pela vista. A diversidade das emoções não pode explicar-se, numa porção de casos, senão pela diversidade das qualidades do Espírito. Tal a razão pela qual uma pessoa sensível chora facilmente; não é a abundância das lágrimas que dá a sensibilidade ao Espírito, mas a sensibilidade do Espírito que provoca a secreção abundante de lágrimas. Sob o império da sensibilidade, o organismo modelou-se sob esta disposição normal do Espírito, como se modelou sob a do Espírito glutão.
Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um Espírito irascível deve levar ao temperamento bilioso; donde se segue que um homem não é colérico porque seja bilioso, mas que é bilioso porque é colérico. Dá-se o mesmo com todas as outras disposições instintivas; um Espírito mole e indolente deixará o seu organismo num estado de atonia em conformidade com o seu caráter, ao passo que, se for ativo e enérgico, dará ao seu sangue, aos seus nervos, qualidades completamente diferentes. A ação do Espírito sobre o físico é de tal modo evidente que, muitas vezes, se veem graves desordens orgânicas produzidas por efeito de violentas comoções morais. A expressão vulgar: A emoção lhe fez subir o sangue, não é assim tão desprovida de sentido quanto se podia crer. Ora, o que pôde alterar o sangue, senão as disposições morais do Espírito?
Este efeito é sensível, sobretudo nas grandes dores, nas grandes alegrias, nos grandes pavores, cuja reação pode até causar a morte. Veem-se pessoas que morrem do medo de morrer. Ora, que relação existe entre o corpo do indivíduo e o objeto que lhe causa pavor, objeto que, no mais das vezes, não tem nenhuma realidade? Diz-se que é o efeito da imaginação; seja; mas o que é a imaginação, senão um atributo, um modo de sensibilidade do Espírito? Parece difícil atribuir a imaginação aos músculos e aos nervos, pois, então, não se explicaria por que esses músculos e esses nervos nem sempre têm imaginação; por que não a têm após a morte; por que o que nuns causa um pavor mortal, superexcita a coragem em outros.
Seja qual for a sutileza que se use para explicar os fenômenos morais exclusivamente pelas propriedades da matéria, cai-se inevitavelmente num impasse, no fundo do qual se percebe, com toda a evidência, e como única posição possível, o ser espiritual independente, para quem o organismo não passa de um meio de manifestação, como o piano é o instrumento das manifestações do pensamento do músico. Assim como o músico afina o seu piano, pode-se dizer que o Espírito afina o seu corpo para pô-lo no diapasão de suas disposições morais.
É realmente curioso ver o materialismo falar incessantemente da necessidade de resgatar a dignidade do homem, quando se esforça por reduzi-lo a um pedaço de carne, que apodrece e desaparece sem deixar qualquer vestígio; de reivindicar para ele a liberdade como um direito natural, quando o transforma num mecanismo, agindo como um autômato, sem responsabilidade por seus atos.
Com o ser espiritual independente, preexistente e sobrevivente ao corpo, a responsabilidade é absoluta. Ora, para o maior número, o primeiro, o principal móvel da crença no niilismo, é o pavor que causa essa responsabilidade, fora da lei humana, e à qual se crê escapar, tapando os olhos. Até hoje esta responsabilidade nada tinha de bem definido; não era senão um medo vago, fundado, é preciso reconhecer, em crenças nem sempre admissíveis pela razão; o Espiritismo a demonstra como uma realidade patente, efetiva, sem restrição, como uma consequência natural da espiritualidade do ser. Eis por que certas pessoas têm medo do Espiritismo, que as perturbaria em sua quietude, erguendo à sua frente o temível tribunal do futuro. Provar que o homem é responsável por todos os seus atos é provar a sua liberdade de ação, e provar a sua liberdade é resgatar a sua dignidade. A perspectiva da responsabilidade fora da lei humana é o mais poderoso elemento moralizador: é o objetivo ao qual conduz o Espiritismo pela força das coisas.
Conforme as observações fisiológicas que precedem, pode-se, pois, admitir que o temperamento é, ao menos em parte, determinado pela natureza do Espírito, que é causa e não efeito.
Dizemos em parte, porque há casos em que o físico evidentemente influi sobre o moral: é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa externa, acidental, independente do Espírito, como a temperatura, o clima, os vícios hereditários de constituição, um mal-estar passageiro, etc. O moral do Espírito pode, então, ser afetado em suas manifestações pelo estado patológico, sem que sua natureza intrínseca seja modificada.
Desculpar-se de suas más ações com a fraqueza da carne não é senão um subterfúgio para escapar à responsabilidade.
A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que derruba a questão e deixa ao Espírito a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, que nem tem pensamento nem vontade, jamais prevalece sobre o Espírito, que é o ser pensante e voluntarioso. É o Espírito que dá à carne as qualidades correspondentes aos seus instintos, como um artista imprime à sua obra material o cunho de seu gênio. Liberto dos instintos da bestialidade, o Espírito modela um corpo, que não é mais um tirano para as suas aspirações à espiritualidade de seu ser; é então que o homem come para viver, porque viver é uma necessidade, mas não vive mais para comer.
A responsabilidade moral dos atos da vida fica, pois, inteira; mas, diz a razão que as consequências desta responsabilidade devem estar na razão do desenvolvimento intelectual do espírito; quanto mais esclarecido, menos desculpável, porque, com a inteligência e o senso moral, nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto. O selvagem, ainda vizinho da animalidade, que cede ao instinto do animal,
comendo o seu semelhante, é, sem contradita, menos culpável do que o homem civilizado que comete uma simples injustiça. Esta lei ainda encontra sua aplicação na Medicina e dá
a razão do insucesso desta em certos casos. Desde que o temperamento é um efeito e não uma causa, os esforços tentados para modificá-lo podem ser paralisados pelas disposições morais do Espírito, que opõe uma resistência inconsciente e neutraliza a ação terapêutica. É, pois, sobre a causa primeira que se deve agir; se não se consegue mudar as disposições morais do Espírito, o pensamento se modificará por si mesmo, sob o império de uma vontade diferente ou, pelo menos, a ação do tratamento médico será secundada, em vez de ser contrariada. Se possível, dai coragem ao poltrão, e vereis cessarem os efeitos fisiológicos do medo; dá-se o mesmo em outras disposições.
Mas, perguntarão, pode o médico do corpo fazer-se médico da alma? Está em suas atribuições fazer-se moralizador de seus doentes? Sim, sem dúvida, em certos limites; é mesmo um dever, que um bom médico jamais negligencia, desde o instante que vê no estado de alma um obstáculo ao restabelecimento da saúde do corpo. O essencial é aplicar o remédio moral com tato, prudência e a propósito, conforme as circunstâncias. Deste ponto de vista, sua ação é forçosamente circunscrita, porquanto, além de não exercer sobre o seu doente senão um ascendente moral, em certa idade é difícil uma transformação do caráter. É, pois, à educação, e, sobretudo à primeira educação, que incumbem os cuidados dessa natureza. Quando, desde o berço, a educação for dirigida nesse sentido; quando se aplicar em abafar, em seus germes, as imperfeições morais, como faz com as imperfeições físicas, o médico não mais encontrará, no temperamento, um obstáculo contra o qual a sua ciência muitas vezes é impotente.
Como se vê, é todo um estudo; mas um estudo completamente estéril, enquanto não se levar em conta a ação do elemento espiritual sobre o organismo. Participação incessantemente ativa do elemento espiritual nos fenômenos da vida, tal é a chave da maior parte dos problemas contra os quais se choca a Ciência.
Quando esta levar em consideração a ação desse princípio, verá se abrirem à sua frente horizontes inteiramente novos. É à demonstração desta verdade que conduz o Espiritismo.

(Revista Espirita, Março de 1869)

domingo, 5 de junho de 2016

PLURALIDADE DOS MUNDOS - VIDA EM OUTROS PLANETAS



Por Allan Kardec

Quem ainda não se perguntou, considerando a Lua e os outros astros, se esses globos são habitados? Antes que a Ciência nos houvesse iniciado na natureza desses astros, podia-se duvidar; hoje, no estado atual de nossos conhecimentos, pelo menos há probabilidade; mas, a essa ideia verdadeiramente sedutora, são feitas objeções tiradas da própria Ciência. Parece, dizem, que a Lua não tem atmosfera e, provavelmente, não tem água. Em Mercúrio, tendo em vista a sua proximidade do Sol, a temperatura média deve ser a do chumbo fundido, de sorte que, se ali houver este metal, deve correr como a água dos nossos rios. Em Saturno dá-se exatamente o oposto; não temos um termo de comparação para o frio que lá deve reinar; a luz do Sol deve ser muito fraca, apesar do reflexo de suas sete luas e de seu anel, porquanto, àquela distância, o Sol não deve parecer senão como estrela de primeira grandeza. Em tais condições, pergunta-se se seria possível viver.
Não se concebe que semelhante objeção possa ser feita por homens sérios. Se a atmosfera da Lua não foi percebida, será racional inferir que não exista? Não poderá ser formada de elementos desconhecidos ou bastante rarefeitos para não produzirem refração sensível? Diremos a mesma coisa da água ou dos líquidos ali existentes. Em relação aos seres vivos, não seria negar o poder divino julgar impossível uma organização diferente da que conhecemos, quando, sob nossos olhos, a providência da Natureza se estende com uma solicitude tão admirável até o menor inseto, dando a todos os seres órgãos apropriados ao meio em que devem viver, seja a água, o ar ou a terra, estejam imersos na escuridão ou expostos à luz do Sol? Se jamais houvéssemos visto peixes, não poderíamos conceber seres vivendo na água; não faríamos uma ideia de sua estrutura. Ainda há pouco tempo, quem teria acreditado que um animal pudesse viver indefinidamente no seio de uma pedra? Mas, sem falar desses extremos, os seres que vivem sob o forte calor da zona tórrida poderiam existir nos gelos polares? E, entretanto, há nesses gelos seres organizados para esse clima rigoroso, incapazes de suportar a ardência de um sol tropical. Por que, então, não admitir que os seres possam ser constituídos de maneira a viver em outros globos e em um meio totalmente diferente do nosso? Seguramente, sem conhecer a constituição física da Lua, dela sabemos o bastante para estarmos certos de que, tais quais somos, ali não poderíamos viver, como não o podemos no seio do oceano, na companhia dos peixes. Pela mesma razão, se os habitantes da Lua, constituídos para viver sem ar ou num ar muito rarefeito, talvez completamente diverso do nosso,
pudessem um dia vir à Terra, seriam asfixiados em nossa espessa atmosfera, como ocorre conosco quando caímos na água. Ainda uma vez, se não temos a prova material e de visu da presença de seres vivos em outros mundos, nada prova que não possam existir organismos apropriados a um meio ou a um clima qualquer. Ao contrário, diz-nos o simples bom-senso que deve ser assim, uma vez que repugna à razão acreditar que esses inumeráveis globos que circulam no espaço não passem de massas inertes e improdutivas. A observação, ali, nos mostra superfícies acidentadas, como aqui, por montanhas, vales, barrancos, vulcões extintos ou em atividade; por que, então, lá não haveria seres orgânicos? Seja, dirão; que haja plantas, mesmo animais, é possível; porém, seres humanos, homens civilizados como nós, conhecendo Deus, cultivando as artes, as ciências, será possível?
Por certo nada prova matematicamente que os seres que habitam os outros mundos sejam homens como nós, nem que sejam mais ou menos avançados do que nós, moralmente falando; mas, quando os selvagens da América viram desembarcar os espanhóis, não tiveram mais dúvidas de que, além dos mares, existia um outro mundo, cultivando artes que lhes eram desconhecidas. A Terra é salpicada de inumerável quantidade de ilhas, pequenas ou grandes, e tudo o que é habitável é habitado; não surge no mar um rochedo sem que o homem ali não plante a sua bandeira. Que diríamos se os habitantes de uma dessas menores ilhas, conhecendo perfeitamente a existência das outras ilhas e continentes, mas não tendo tido jamais relações com os que os habitam, acreditassem ser os únicos seres vivos do globo? Dir-lhes-íamos: Como podeis acreditar que Deus tenha feito o mundo somente para vós? Por qual estranha bizarrice vossa pequena ilha, perdida num canto do oceano, teria o privilégio de ser a única habitada? Podemos dizer o mesmo em relação às outras esferas. Por que a Terra, pequeno globo imperceptível na imensidão do Universo, que dos outros planetas não se distingue nem por sua posição, nem por seu volume, nem por sua estrutura, visto não ser nem a menor, nem a maior, nem está no centro, nem na extremidade; por que, dizíamos, dentre tantas outras seria a única morada de seres racionais e pensantes? Que homem sensato poderia crer que esses milhões de astros que cintilam sobre nossas cabeças foram feitos somente para recrear os nossos olhos? Qual seria, então, a utilidade desses outros milhões de globos invisíveis a olho nu e que não servem sequer para nos iluminar? Não haveria ao mesmo tempo orgulho e impiedade pensar que assim fosse? Àqueles a quem pouco importa a impiedade, diremos que é ilógico.
Chegamos, pois, por um simples raciocínio, que muitos outros fizeram antes de nós, a concluir pela pluralidade dos mundos, e esse raciocínio é confirmado pelas revelações dos Espíritos. Com efeito, eles nos ensinam que todos esses mundos são habitados por seres corporais apropriados à constituição física de cada globo; que, entre os habitantes desses mundos, uns são mais, outros menos adiantados que nós, do ponto de vista intelectual, moral e mesmo físico. Ainda mais: sabemos hoje que podemos entrar em relação com eles e obter informações sobre o seu estado; sabemos, igualmente, que não apenas são habitados todos os globos por seres corpóreos, mas que o espaço é povoado de seres inteligentes, a nós invisíveis por causa do véu material lançado sobre nossa alma e que revelam sua existência por meios ocultos ou patentes. Assim, tudo é povoado no Universo, a vida e a inteligência estão por toda parte: nos globos sólidos, no ar, nas entranhas da Terra, e até nas profundezas etéreas. Haverá nessa doutrina alguma coisa que repugne à razão? Não é, ao mesmo tempo, grandiosa e sublime? Ela nos eleva por nossa própria pequenez, bem ao contrário desse pensamento egoísta e mesquinho, que nos coloca como os únicos seres dignos de ocupar o pensamento de Deus.

Revista Espírita nº3, Março de 1858


"Disco Voador" na voz de Palmeira & Bia

quarta-feira, 18 de maio de 2016

ESPIRITISMO E ESPIRITUALISMO

por Allan Kardec, em 1857
Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma significação bem definida; dar-lhes outra, para aplica-las à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar as causas já tão numerosas da anfibologia*. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que acredite haver em si mesmo alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue dai que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível.
Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo, empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical e que por isso mesmo têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando para espiritualismo a sua significação própria. Diremos, portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos
ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se o quiserem, os espiritistas.
Como especialidade O Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita; como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual apresenta uma das fases. Essa a razão por que traz sobre o título as palavras: Filosofia Espiritualista.
(Introdução ao estudo da Doutrina Espirita, Item I de "O Livro dos Espíritos")
* Anfibologia: s.f. Ambiguidade, duplo sentido de uma frase.