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sábado, 20 de agosto de 2016

O EGOISMO

Por Léon Denis

O egoísmo é irmão do orgulho e procede das mesmas causas. É uma das mais terríveis enfermidades da alma, o maior obstáculo ao melhoramento social. Por si só ele neutraliza e torna estéreis quase todos os esforços que o homem faz para atingir o bem. Por isso, a preocupação constante de todos os amigos do progresso, de todos os servidores da justiça deve ser a de combatê-lo. O egoísmo é a persistência em nós desse individualismo feroz que caracteriza o animal, como vestígio do estado de inferioridade pelo qual todos já passamos. Mas, antes de tudo, o homem é um ser social. Está destinado a viver com os seus semelhantes; nada pode fazer sem o concurso destes. Abandonado a si mesmo, ficaria impotente para satisfazer suas necessidades, para desenvolver suas qualidades. Depois de Deus, é à sociedade que ele deve todos os benefícios da existência, todos os proventos da civilização. De tudo aproveita, mas precisamente esse gozo, essa participação dos frutos da obra comum lhe impõe também o dever de cooperar nela. Estreita solidariedade liga-o a esta sociedade, como parte integrante e mutuante. Permanecer inativo, improdutivo, inútil, quando todos trabalham, seria ultraje à lei moral e quase um roubo; seria o mesmo que lucrar com o trabalho alheio ou recusar restituir um empréstimo que se tomou. Como parte integrante da sociedade, o que o atingir também atinge a todos. É por essa compreensão dos laços sociais, da lei de solidariedade que se mede o egoísmo que está em nós. Aquele que souber viver em seus semelhantes e por seus semelhantes não temerá os ataques do egoísmo. Nada fará sem primeiro saber se aquilo que produz é bom ou mau para os que o rodeiam, sem indagar, com antecedência, se os seus atos são prejudiciais ou proveitosos à sociedade que integra. Se parecerem vantajosos para si só e prejudiciais para os outros, sabe que em realidade eles são maus para todos e por isso se abstém escrupulosamente. A avareza é uma das mais repugnantes formas do egoísmo, pois demonstra a baixeza da alma que, monopolizando as riquezas necessárias ao bem comum, nem mesmo sabe delas aproveitar-se. O avarento, pelo seu amor ao ouro, pelo seu ardente desejo de adquirir, empobrece os semelhantes e torna-se também indigente; pois, ainda maior que essa prosperidade aparente, acumulada sem vantagem para pessoa alguma, é a pobreza que lhe fica, por ser tão lastimável como a do maior dos desgraçados e merecer a reprovação de todos. Nenhum sentimento elevado, coisa alguma do que constitui a nobreza da criatura pode germinar na alma de um avarento. A inveja e a cupidez que o atormentam sentenciam-lhe uma existência penosa, um futuro mais miserável ainda. Nada lhe iguala o desespero, quando vê, de além-túmulo, seus tesouros serem repartidos ou dispersados. Vós que procurais a paz do coração, fugi desse mal repugnante e desprezível. Mas, não caiais no excesso contrário. Não desperdiceis coisa alguma. Sabei usar de vossos recursos com critério e moderação. O egoísmo traz em si o seu próprio castigo. O egoísta só vê a sua pessoa no mundo, é indiferente a tudo o que lhe for estranho. Por isso são cheias de aborrecimento as horas de sua vida. Encontra o vácuo por toda parte, na existência terrestre, assim como depois da morte, porque, homens ou Espíritos, todos lhe fogem.

Aquele que, pelo contrário, aproveitando-se do trabalho já encetado por outros, sabe cooperar, na medida de suas forças, para a obra social e vive em comunhão com seus semelhantes, fazendo-os compartilhar de suas faculdades e de seus bens, ou espalhando ao seu redor tudo o que tem de bom em si, esse se sente mais feliz. Está consciente de ter obedecido à lei e sabe que é um membro útil à sociedade. Interessa-lhe tudo o que se realiza no mundo, tudo o que é grande e belo sensibiliza-o e comove; sua alma vibra em harmonia com todos os espíritos esclarecidos e generosos; o aborrecimento e o desânimo não têm nele acesso. Nosso papel não é, pois, o da abstenção, mas, sim, o de pugnar continuamente pela causa do bem e da verdade. Não é sentado nem deitado que nos cumpre contemplar o espetáculo da vida humana em suas perpétuas renovações: é de pé, como campeão ou como soldado, pronto a participar de todos os grandes trabalhos, a penetrar em novos caminhos, a fecundar o patrimônio comum da Humanidade. Embora se encontre em todas as classes sociais, o egoísmo é mais apanágio do rico que do pobre. Muitíssimas vezes a prosperidade esfria o coração; no entanto, o infortúnio, fazendo conhecer o peso da dor, ensina-nos a compartilhar dos males alheios. O rico saberá ao menos a preço de que trabalhos, de que duros labores se obtêm as mil coisas necessárias ao seu luxo? Jamais nos sentemos a uma mesa bem servida sem primeiro pensar naqueles que passam fome. Tal pensamento tornar-nos-á sóbrios, comedidos em apetites e gostos. Meditemos nos milhões de homens curvados sob os ardores do estio ou debaixo de duras intempéries e que, em troca de deficiente salário, retiram do solo os produtos que alimentam nossos festins e ornam nossas moradas. Lembremo-nos que, para iluminar os nossos lares com resplandecente luz ou para fazer brotar chama benfeitora em nossas cozinhas, homens, nossos semelhantes, capazes como nós de amar, de sentir, trabalham nas entranhas da terra, longe do céu azul ou do alegre sol, e, de picareta em punho, levam toda a vida a perfurar a espessa crosta deste planeta. Saibamos que, para ornar os salões com espelhos, com cristais brilhantes, para produzir os inumeráveis objetos que constituem o nosso bem-estar, outros homens, aos milhares, semelhantes ao demônio em volta de uma fogueira, passam sua vida no calor calcinante das grandes fornalhas das fundições, privados de ar, extenuados, consumidos antes do tempo, só tendo por perspectiva uma velhice achacosa e desamparada. Sim, saibamo-lo, todo esse conforto de que gozamos com indiferença é comprado com o suplício dos humildes e com o esmagamento dos fracos. Que esse
pensamento se grave em nós, que nos siga e nos obsidie; como uma espada de fogo, ele enxotará o egoísmo dos nossos corações e forçar-nos-á a consagrar nossos bens, lazeres e faculdades à melhoria da sorte dessas criaturas. Não haverá paz entre os homens, não haverá segurança, felicidade social enquanto o egoísmo não for vencido, enquanto não desaparecerem os privilégios, essas perniciosas desigualdades, a fim de cada um participar, pela medida de seus méritos e de seu trabalho, do bem-estar de todos. Não pode haver paz nem harmonia sem justiça. Enquanto o egoísmo de uns se nutrir dos sofrimentos e das lágrimas de outros, enquanto as exigências do eu sufocarem a voz do dever, o ódio perpetuar-se-á sobre a Terra, as lutas de interesse dividirão os ânimos, tempestades surgirão no seio das sociedades. Graças, porém, ao conhecimento do nosso futuro, a ideia de solidariedade acabará por prevalecer. A lei da reencarnação, a necessidade de renascer em condições modestas, servirão como aguilhões a estimular o egoísta. Diante dessas perspectivas, o sentimento exagerado da personalidade atenuar-se-á para dar lugar a uma noção mais exata da situação e papel do homem no Universo. Sabendo-nos ligados a todas as almas, solidários no seu adiantamento e felicidade, interessar-nos-emos com ardor pela sua condição, pelos seus progressos, pelos seus trabalhos. E, à medida que esse sentimento se estender pelo mundo, as instituições, as relações sociais melhorarão, a fraternidade, essa palavra repetida banalmente por tantos lábios, descerá aos corações e tornar-se-á uma realidade. Então nos sentiremos viver nos outros, para fruir de suas alegrias e sofrer de seus males. Não mais haverá queixume sem eco, uma só dor sem consolação. A grande família humana, forte, pacífica e unida, adiantar-se-á com passo rápido para os seus belos destinos.

Do Livro "O Caminho Reto"

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O CÉU ESTRELADO



Por Léon Denis

Um livro grandioso, dissemos, está aberto aos nossos olhos, e todo observador paciente pode ter nele a palavra do enigma, o segredo da vida eterna.
Aí se vê que uma Vontade dispôs a ordem majestosa em que se agitam todos os destinos, se movem todas as existências, palpitam todos os corações.
Ó Alma! Aprende primeiro a suprema lição que desce dos espaços sobre as frontes apreensivas. O Sol está escondido no horizonte; seus alvores de púrpura tingem ainda o céu; luz serena indica que, além, um astro se velou aos nossos olhos. A noite estende acima de nossas cabeças seu zimbório constelado de estrelas.
Nosso pensamento se recolhe e procura o segredo das coisas, Voltemo-nos para o Oriente. A Via-Láctea expande, qual imensa fita, suas miríades de estrelas, tão aconchegadas, tão longínquas, que parecem formar uma contínua massa. Por toda parte, à medida que a noite se torna mais densa, outras estrelas aparecem, outros planetas se acendem qual se fossem lâmpadas suspensas no santuário divino. Através das profundezas insondáveis, esses mundos permutam os seus raios de prata; impressionam-nos, a distância, e nos falam uma linguagem muda.
Eles não brilham todos com o mesmo fulgor: a potente Sírius não se pode comparar à longínqua Capela. Suas vibrações gastaram séculos a chegar até o nosso olhar, e cada um de seus raios vale por um cântico, uma verdadeira melodia de luz, uma voz penetrante. Esses cânticos se resumem assim: “Nós também somos focos de vida, de sofrimento, de evolução. Almas, aos milhares, cumprem, em nós, destinos semelhantes aos vossos.”
Entretanto, todos não têm a mesma linguagem, porque uns são moradas de paz e de felicidade, e outros, mundos de luta, de expiação, de reparação pela dor. Uns parecem dizer: Eu te conheci, Alma humana, Alma terrestre; eu te conheci e hei de te tornar a ver! Eu te abriguei em meu seio outrora, e tu voltarás a mim. Eu te espero, para, por tua vez, guiares os seres que se agitam em minha superfície!
E depois, mais longe ainda, essa estrela que parece perdida no fundo dos abismos do céu e cuja luz trêmula é apenas perceptível, essa estrela nos dirá: Eu sei que tu passarás pelas terras que formam meu cortejo, e que eu inundo com os meus raios; eu sei que tu aí sofrerás e te tornarás melhor. Apressa a tua ascensão. Eu serei e sou já para contigo uma vera amiga, porque até mim chegou o teu apelo, tua interrogação, tua prece a Deus.

Livro "O Grande Enigma", Capitulo 10
Instrumental com imagens do Céu estrelado

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O CÂNTICO DA IMORTALIDADE


Vivemos...
E até então, a vida tem se me apresentado como uma verdadeira benção.
Não porque esteja isento de dores e dificuldades... mas por, desde menino, tenho vivenciado experiencias que me comprovam a grandeza da existência. 
Nas oportunidades de verificar os valores da dignidade, da compaixão, da bondade, da fé...
E nos lances de luz, que vem nos revelando a Imortalidade do ser.
Recordando da infância, me vem a tela do pensamento as inúmeras pessoas que vinham ao nosso lar, em busca das preces e imposições das mãos que meu pai realizava. 
Quantos corações sofridos... quantas lagrimas... mas acima disso, a presença vibrante da fé e do carinho que envolvia aquelas pessoas. A luz do Evangelho Segundo o Espiritismo, meu pai exortava a Bondade de Deus e a grandeza da Vida que jamais acaba.
Realizava comoventes preces, impunha as mãos, revivendo aqueles quadros tão belos do Evangelho do Cristo, e as pessoas saiam revigoradas e fortalecidas.
E sempre presente as exortações de meu pai, estava a afirmação da presença dos seres espirituais, criaturas benevolentes, homens e mulheres que vivenciaram as experiencias materiais, como todos nós, e prosseguiam vivendo além tumulo, amando e amparando os que aqui continuam em sua jornada terrena.
Quantas e quantas vezes, nos socorreram em nossas necessidades de consolo e esperança, esses seres luminosos, nos comprovando que acima das aflições, brilha a Vida vencendo a morte. Nada diferente da bela imagem da Ressurreição do Cristo, nos estimulando o coração a prosseguir perante os dissabores e problemas, cientes que nada pode destruir-nos.
O Espiritismo, nada mais vem realizar que nos recordar esses princípios celestes que regem a humanidade. Traz-nos de volta o Cristianismo naquela pureza singela, que enchia de coragem o intimo dos mártires, que seguiam cantando aos circos das ignominias da antiga Roma, dando o testemunho do perdão e da fé viva.
Os fatos espiritas sempre existiram... mas na atualidade, o homem é chamado a compreende-los, saindo do misticismo e fantasias, para a realidade mais profunda do ser. 
Não morremos e são exatamente os que partiram antes de nós que vem dar seu testemunho, ao longo de toda historia humana.
Relendo o belo exemplar do escritor francês Léon Denis, "Os Espíritos e os Médiuns", no capitulo 2, chamado "Os Fenômenos Espiritas", nos deparamos com belo exemplo do que falamos:

Mais recentemente, o pastor Wynn, que goza de certo renome como pregador na Inglaterra, publicou um pequeno volume, muito substancioso, em que relata toda uma série de fenômenos comprobatórios da sobrevivência de seu filho Ruperto. 
Este jovem, caído gloriosamente nas linhas inglesas, durante o Grande Cataclismo, manifestou-se de diferentes maneiras, por vários médiuns que não o conheciam, nem a seu pai, em condições notáveis de autenticidade. 
O Sr. Wynn, que a princípio era cético com respeito ao Espiritismo, chegou a reconhecer a sua validade, aderindo a ele publicamente. 
Em continuação, reproduzimos um dos fatos assinalados em sua obra  Ruperto Vive
O autor se expressa assim: 
“Uma noite do mês de julho de 1918, subi a um vagão de terceira classe, na estação de Marylebene (bairro de Londres) para ir a Chesham. No fundo do compartimento se achavam sentadas duas senhoras, uma de frente para outra. Pus-me a ler meu diário The Evening Standard. Quando o trem se aproximava de Harrow, ouvi que uma das senhoras dizia a sua acompanhante: 
– Permita-me, sou espírita e médium; suponho que a senhora não terá medo, mas sua mãe está sentada ao seu lado. Ela me disse que passou para o Além recentemente, e me roga que lhe transmita algo. 
Não esquecerei nunca a expressão da senhora a quem se dirigiam essas palavras inquietantes. Ficou pálida. Sem dúvida despertaram-lhe todos os seus preconceitos religiosos e, com uma disposição de espírito anticientífica, murmurou: 
– Mas, eu não creio no Espiritismo. É contrário a meus princípios. Por outra parte, eu não a conheço e a senhora não conhece a mim. Como sabe a senhora que minha mãe morreu?
– Eu sei que sua mãe passou para o Além, porque ela mesma me disse, respondeu a outra. Está sentada a seu lado e, além disso, falou que a senhora se chama Gracia. (Aqui a informou de uma comunicação pessoal que fez a cética senhora trocar imediatamente de idéia. É-me impossível, por seu caráter particular, publicar essa comunicação, ainda que seja parte dessa assombrosa revelação). 
Voltando-se para mim, a médium disse: 
– Creio conhecê-lo. É o senhor Wynn, de Chesham, verdade? Seu filho Ruperto veio outra noite a uma de minhas reuniões e me rogou que lhe pedisse para ter uma sessão com meu marido e comigo, em sua biblioteca, e que permitisse a meu marido fotografá-lo. 
A senhora me falava tranquilamente, e de um modo muito natural, como se estivesse me oferecendo uma taça de chocolate. 
– Senhora, disse-lhe, tanto minha esposa quanto eu teremos muito gosto em recebê-la. 
A senhora Rice – assim se chamava a médium, – veio a Chesham com seu marido. Sentamo-nos em minha biblioteca. Essa senhora, que vive em Nara, Northwood, Middlesex, nunca havia estado em nossa casa. Eu não lhe havia dito nada de Ruperto, e tinha preparado certas perguntas para pôr à prova sua clarividência. 
Fazia só alguns minutos que se havia sentado quando se manifestou W. T. Stead. Era o aspecto, os
trejeitos, a voz do grande periodista, que me deu provas de sua identidade verdadeiramente incontestáveis. 
Depois veio Ruperto, falando com o seu tom familiar habitual. Respondendo às minhas perguntas, mostrou o lugar da casa onde dormia, a gaveta onde colocava suas cartas. Falou da gata que uma vez trouxe do campo, pequenina, suja e meio morta, disse-nos o nome dela, a cor do pêlo, e deu uma porção de detalhes de nossa vida íntima que a médium não podia conhecer de maneira nenhuma.
Depois, obtivemos a fotografia de Ruperto, de forma tal que os peritos fotógrafos, a quem ela foi mostrada, afirmaram-me que seria impossível, com todos os seus recursos, obter um resultado semelhante. Todos os membros da família e amigos de meu filho o reconheceram imediatamente.” 
Como conclusão, o pastor Wynn declara: 
“Antes eu acreditava na sobrevivência, só pelo ato da fé; hoje, creio nela porque sei que é certa.” 
Com respeito às suas convicções religiosas, acrescenta: 
“Estas investigações tiveram como resultado fortificar minha crença em Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento. Hoje compreendo centenas de coisas da Bíblia que antes não podia compreender.”

E assim prossegue o Cântico da Imortalidade proferido por Jesus, até nossos dias, a fim que tenhamos consciência que a Vida é Imbatível e que aqueles que partiram antes de nós pelo fenômeno da morte, não deixaram de existir, e seguem nos enviando suas vibrações de amor e ternura, pois que nossos laços são eternos!

"O Homem" na voz de Elizabete Lacerda